"TUDO O QUE CONHECES E DESEJAS CONHECER JÁ ERA CONHECIDO PELOS MORTOS
- OU É CONHECIDO POR ELES. SOMOS ENFRAQUECIDOS POR ISTO?" H. Barker

05 setembro 2010

Tu acreditas no que quiseres

“Não nascemos cheios de pecados, nascemos cheios de apetite deles.”
Howard Barker


SINOPSE
Um motel.
Eddie, May e Martin.
Um amor que está, ou parece estar, condenado ao fracasso.
Um desejo que não pode ser cumprido.



Sam Shepard e "Loucos por Amor" pareceram-nos de tal forma aliciantes que nos foi impossível resistir-lhes. Decidimos explorar o texto de forma a podermos encontrar a nossa forma de o dizer, de o tornar nosso. Sempre fiéis ao autor e ao que o texto tinha para nos dar. Fizemos a nossa dramaturgia, o que implicou que suprimíssemos a personagem do Velho, o que não se tornou um obstáculo, mas permitiu-nos uma nova visão do texto e levou-nos a uma maior densidade na relação Eddie/May.





1ª Criação d'A TURMA
 Encenação Manuel Tur
Assistência de Encenação
António Parra

Interpretação André Brito, Teresa Arcanjo e Tiago Correia
Cenografia e Adereços Ana Gormicho e Daniel Teixeira
Figurinos Anita Gonçalves
Desenho de Luz Francisco Tavares Teles
Sonoplastia Filipe Azevedo

Design Gráfico
Inês Gomes Ferreira


Produção Executiva e Direcção de Cena Joana Neto
Direcção de Produção e Agenciamento ERVA - Estrutura de Representação de Valores Artísticos
Produção A TURMA
Duração Aproximada 60 minutos
Classificação Etária M16



Estreia e Carreira do Espectáculo
Maria-Vai-Com-As-Outras, Porto - 22 a 25 de Abril de 2008
Auditório Municipal de Freixo de Espada à Cinta - 5 de Julho de 2008


"Esta adaptação do texto do texto Loucos por Amor, de Sam Shepard, centra a acção nas relações entre May e Eddie, amantes e meios-irmãos com personalidades conflituosas. A relação quase sempre equívoca que existe estas duas personagens estende-se também à relação estabelecida com o público que, durante grande parte do espectáculo, se sente parte da acção.
Esta sensação é conseguida, não por um artifício de encenação ou pelo dispositivo cénico – que, de resto, está muito próximo da audiência mais por razões de ordem prática do que por opção de estilo – mas pelo conjunto das opções da direcção de actores que concentra nos diálogos, nas pausas, nas respirações e nos olhares dos actores todas as tensão entre as personagens.
Ao público é pedido, inconscientemente, o comportamento de uma câmara de filmar alternando close ups entre um e outro actor, seguindo os movimentos de cada personagem e, repetidas vezes, acompanhando a personagem que se afasta, que vira as costas ao diálogo, que abre a porta para entrar na casa de banho, que espreita pela janela deixando a outra personagem a falar sozinha fora do alcance da câmara.
Este é um espectáculo quase cinematográfico.
Dias depois de ter visto esta peça, revi o filme de Leos Carax Os Amantes do Pont Neuf, com a dourada Julliette Binoche e Denis Lavant. Foi inevitável pensar que as contracenas quase silenciosas de um, nos remetem para as violentas e longas discussões de outro. As tentativas de aproximação das personagens de Carax, sempre com resultados imprevistos, reflectem os argumentos de May e Eddie que ora levam a uma aparente resolução do conflito ora contribuem para uma maior distância entre eles, que dá origem a mais diálogos e argumentos violentos que ficam aparentemente resolvidos com uma ameaça de invasão exterior. E este ciclo repete-se ao longo da peça sob variadas formas, tal como no filme de Carax.
A anunciada chegada de Martin, o encontro que May repetidamente refere para afastar Eddie, contribui para um novo ciclo de diálogos, desta vez repartidos entre as três personagens e que Eddie tenta liderar desde o início.
A presença desta terceira personagem/actor contribui definitivamente para completar este quadro sedutoramente teatral, mas também para o aproximar – porque agora a câmara/público tem três possibilidades de fuga – da linguagem cinematográfica madura e manipuladora do filme de Carax.
Pode-se dizer, sem correr o risco de ser excessivo, que este espectáculo é uma bela e madura experiência teatral muito pouco comum em criadores tão jovens."

Hélder Sousa, Abril 2008